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Um monumento às vitimas

Michael Kegler *


Hoje, Soledad Barret Viedma teria 65 anos. Se ela não tivesse sido assassinada hoje há 36 anos, na chamada »Chacina da Chácara de São Bento«, em 7 de janeiro de 1973, um dia após o seu vigésimo oitavo aniversário.

Ela é uma das inúmeras vítimas da ditadura militar no Brasil, uma das inúmeras militantes que nunca tiveram a chance de, mais tarde, serem anistiados, de se integrarem na vida política de seu país re-democratizado muitos anos mais tarde, ser ministra ou artista, ou quem sabe, uma simples pessoa normal. Vivo até hoje está o seu assassino, que na época fingia ser seu namorado e atendia pelo nome de »Daniel«, o histórico »Cabo Anselmo« ex-rebelde e agente de infiltração do governo militar.

Urariano Mota, que em 1997, com seu romance Os Corações Futuristas,  ergueu um monumento literário a uma geração perdida de desconhecidos resistentes à ditadura militar no Brasil, volta agora a evocar aqueles que não sobreviveram, os assassinados enterrados em valas comuns ou até clandestinamente, de que hoje pouco mais do que alguns recortes amarelados guardam uma fraquíssima memória.

Estes recortes aliás fazem parte da narrativa desta impressionante novela, que assim rompe com vários elementos tradicionais do gênero, deixando »dados« históricos para os jornais ou a internet. O autor (que muitas vezes tendemos a confundir com o narrador) se restringe a contar uma estória, a de um jovem no Recife, que está fascinado e secretamente apaixonado pela radiante revolucionária Soledad, »Sol«, vinda do Paraguai, do Chile, do Uruguai, de Cuba (?) para se juntar aos jovens rebeldes (e de certa maneira muito ingênuos) provincianos do Brasil em seus anos de chumbo.

»Á distância, poderia ser dito que aqueles jovens estavam todos loucos, em 1972. Todos, da mais ridícula alienação, da mais feroz angústia até o delírio suicida, em graus variados, todos estavam loucos. Mas isso, antes de ser uma condenação, é um reconhecimento de humanidades.« (p. 43)

… diz o narrador décadas depois, quando resolve juntar as suas memórias, indignado, depois de ter visto o traidor, a grande desilusão de sua vida, na televisão. E começa a falar, a escrever, sobre a mulher que para ele, naquele tempo, significava tudo de que sonhava: Beleza, ousadia, sensualidade, um mundo mais livre. E este sonho, esta projeção, é bruscamente destruído, justamente por mais um que todos eles invejavam: Daniel, o líder »treinado em Cuba«, que na verdade se revelara agente infiltrante da própria ditadura.

E não só os sonhos …

Aqueles tempos deviam ser loucos, e nas vitrolas tocavam os Tropicalistas (bem alto, pois as paredes tinham ouvidos), mas um sonho que »dançava«, muitas vezes levava uma pessoa concreta, uma vida, como no caso de Soledad, que, ainda por cima grávida do namorado, fora assassinada pelo próprio. A vida escreve e escrevia dramas piores do que a literatura jamais o seria capaz.

E o narrador (que muitas vezes se confunde com o autor) em sua indignação, em seu luto de décadas em que se mistura um sentimento de culpa (afinal ele sobrevivera, por um acaso, uma bobagem), procura por palavras e expressões, na tentativa de um ensaio que seja capaz de captar, de narrar, de explicar, aquilo que se passou, não nos jornais, mas nas cabeças e nos corações daquela geração danificada de 1973. 

Soledad no Recife é mais do que uma ficção, e muito mais do que uma novela histórica. Uma homenagem a Soledad em representação aos tantos assassinados anónimos, isso sim, com certeza, mas também não só, e muito mais do que isto … Talvez um resgate … de um estado de alma, daqueles que sobreviveram, feridos, os anos intermináveis da ditadura.  

*Escritor, tradutor, que edita o Nova Cultura, site de literatura na Alemanha. Texto publicado  em   http://novacultura.de/wb/pages/livros/urariano-mota-soledad-no-recife.php



Escrito por urariano às 12h34
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Ñasaindy Barret, filha de Soledad, ao lado do autor do livro

O  último poema de Soledad Barrett

 

Urariano Mota

 

Arte gera arte. Fraternidade gera fraternidade. Humanidade gera humanidade.

 

Se não for isso, observem que coisa linda, muito mais que linda, Ñasaindy Barrett, a filha de Soledad Barrett, me enviou ontem à noite.
Digo linda e mais que linda para expressar uma categoria que vai além da estética, alcança a história, faz da história o destino de toda a gente, e num só passo encarna uma poética real, viva, como um destino grafado em versos. Uma estética, enfim, que é também uma ética e uma profecia decifrada.   

Quero dizer, devo dizer. Esse presente me chegou como se fosse gerado pelo texto “Diário da Paixão e da Infâmia”, que a jornalista e escritora Memélia postou em seu blog http://memeliamoreira.com/blog1/2009/11/03/diario-da-paixao-e-da-infamia/

Recomendo o texto de Memélia,  que é belíssimo. 

Mas o fato é que , ao ler a crítica de Memélia para o livro “Soledad no Recife”, Ñasaindy me escreveu: 

 
“Muito bom! Compartilho com ela de todos os detalhes e sensações.
A música da Gal que ecoa por entre as tuas páginas, ‘Mamãe, mamãe, não chore, a vida é assim mesmo…’ e o comentário de Memélia:  ‘E quantas mães até hoje ainda não enxugaram suas lágrimas porque seus filhos se foram e sequer os corpos apareceram?’... fez eu me levantar da cadeira e ir direto à papelada reservada (às memórias de minha vida e das pessoas que por ela passaram e do que me deram ou o que delas eu guardei...e que às vezes manuseio para encontrá-las e me encontrar nelas) pra te dar este poema, que talvez você já tenha, mas na dúvida..

Ele foi enviado para mim por Nanny Barrett, irmã de Soledad (outra grande guerreira, como todos da família), logo depois que nos conhecemos, no início da década de noventa. Hoje ela não está mais entre nós.
O poema foi escrito por Soledad, que o deu de presente para o aniversário de sua mãe em 11 de março de 1971.
 

Madre, me apena verte así
el quebrado mirar de tus ojos azul cielo
en silencio implorando que no parta.

Madre, no te apenes si no vuelvo
me encontrarás en cada muchacha de pueblo
de este pueblo, de aquel, de aquel otro
del más acá, del más allá
talvez cruce los mares, las sierras
las cárceles, los cielos
pero, Madre, yo te aseguro,
que sí me encontrarás!
en la mirada de un niño feliz
de un joven que estudia
del campesino en su tierra
del obrero en su fábrica
del traidor en la horca
del guerrillero en su puesto
siempre, siempre me encontrarás!
 
Mamá, no te pongas triste,
Tu hija te quiere.

 Soledad Barrett

Traduzo em minhas palavras, e se você quiser pode apresentar para todos. Este poema diz muito sobre ela, monta a sua personalidade.

 

 Mãe, me entristece te ver assim
o olhar quebrado dos teus olhos azul céu
em silêncio implorando que eu não parta.

Mãe, não sofras se não volto
me encontrarás em cada moça do povo
deste povo, daquele, daquele outro
do mais próximo, do mais longínquo
talvez cruze os mares, as montanhas
os cárceres, os céus
mas, Mãe, eu te asseguro,
que, sim, me encontrarás!
no olhar de uma criança feliz
de um jovem que estuda
de um camponês em sua terra
de um operário em sua fábrica
do traidor na forca
do guerrilheiro em seu posto
sempre, sempre me encontrarás!
 
Mãe, não fiques triste,
tua filha te quer.


 Soledad Barrett”

 

 Agora vocês entendem a estética que é uma ética e uma profecia em um só poema.  A vida que veio depois mostrou esse poema como uma canção de despedida. Que pode ser lido enquanto escutamos “Mamãe, coragem”,  http://www.youtube.com/watch?v=bZ4oTOud8Fk Agora.

 

 

 

 

 



Escrito por urariano às 19h02
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SOL: A MÁRTIR DO PERNAMBUCANO URARIANO MOTA
(Luiz de Almeida)*

     Minhas lentes já estavam vencidas, prejudicando assim qualquer esforço para uma rápida leitura, mesmo tendo a prática da leitura dinâmica. Mas, ao receber o livro do meu amigo Urariano Mota, Soledad no Recife, não tive outra escolha após ler os textos do Alípio Freire e a apresentação do Flávio Aguiar: Primeiro fui passar um novo café, conferir o maço de cigarros e ajeitar o abajur ao lado da escrivaninha. Enquanto a água fervia, lembranças já vagaram e divagaram pela mente: ditadura militar, 1970, Grêmio Estudantil Guilherme de Almeida e o grande jornal “Cadelão Taimes” (Não é erro de digitação, o jornal tinha esse “nome”), DOI/CODI, OBAN, Cemitério Dom Bosco no Distrito de Perus/SP, assassinato do José Maria Ferreira Araújo (ou Edson Cabral Sardinha), assassinato do jornalista Luiz Eduardo Merlino (SP), Mário Alves (RJ), o sumiço do Rubens Paiva, e... Mentira, traição e medo. Um resíduo de raiva parecia renascer dentro do peito trazendo a execrabilidade da minha paz interior.
    

Nas primeiras páginas não consegui discernir o escritor do personagem. Vibrei. Ele seria ele uma testemunha ainda viva? Aos poucos essa pré dedução foi sendo desfeita pela imaginável fisionomia facial e contornos corporal de Soledad. Daniel seria apenas um coadjuvante. E fui degustando página a página, um café, outro cigarro, divagações entre uma tragada e outra, novas lembranças... Meu Deus, quatro horas da madrugada e só então percebi que havia parado de ler na página 86. O café não desceu e com as mãos trêmulas, mal consegui ascender mais um cigarro. Um trepidar incontrolável dos lábios, soluços e lágrimas. As palavras do cabo Anselmo descritas por Urariano fizeram-me estremecer de raiva. Episódios de traição maligna medraram na minha mente. Lembrei-me do episódio do “Cadelão Taimes”, onde eu e meus outros amigos fomos abandonados por um “anselmo” do grupo que se passava por amigo, justo nas ocorrências da censura e prisão do Jornal. Descobria ou relembrava, não sei até agora discernir corretamente, que aqui em Piraju também existiu e ainda vive um traidor com atitudes similares às do mentiroso, covarde e traidor cabo Anselmo, pois no momento do aperto, enquanto éramos “solicitados” para deixar a escola e chamados para depoimentos, como fui no DOI/SP, o borra-botas fugiu. E continua assim até hoje, mentiroso e traidor. Apesar de tudo: sinto pena, pois ao vê-lo pelas ruas só consigo avistar um derrotado e sem prestígio, e que ainda se presta ser boi-de-piranha no meio político daqui. É ainda daqueles que mente e acredita nas suas próprias mentiras.

 

     Mais calmo, retomei o livro e custou-me parar de virar e desvirar as páginas 89 até a 86. Aquelas imagens de Soledad me cativaram. O sorriso estampado numa face sincera reflete bem o eu interior daquela mulher. Sorriso igual só havia visto em 1970, na face de outra mulher, minha mãe, de nome Zita, ao ver-me entrando portão adentro retornando de São Paulo após uma noite e um dia de privação no DOI, ocasião que fui salvo pelo meu tio Luiz Alves de Almeida, um sargento da antiga polícia Metropolitana e participante ativo da OBAN, que somente em 2007 fiquei sabendo que havia falecido. A causa-morte eu não sei até hoje.

 

     Li até a síntese biográfica. Já era dia. Meus olhos ardiam e a língua ficara áspera de tanto café e cigarros. Não estava com sono, mas ainda em estado de raiva e êxtase misturados. Esqueci da Sol e lembrei-me do Urariano. Voltei abrir o livro no “capítulo 13”: Um livro se constrói sob dificuldades – na penúltima linha onde Urariano cravou: “(...). Bem sei que autores não choram. Autor deve ser duro e frio. (...)”. Aqui, o único ponto que discordei do Urariano, pois se “autores” não choram, não têm o direito de fazer seus leitores chorarem.

 

     Está marcado para o final deste mês, provavelmente no dia 25, eu ler este livro novamente. Só que agora o lerei em voz alta e com platéia. Essa platéia é especial, pois será composta de apenas duas pessoas. Um casal amigo. Moram em Botucatu/SP. Ele é cego. Estudou comigo no colégio interno quando tínhamos 12, 13 anos. Em 1971, numa manifestação estudantil, estilhaços de uma possível granada desfiguraram seu rosto e a visão. Era um líder estudantil e cursava medicina. Hoje, casado com aquela que foi sua namorada desde 1970, escutei seus berros de alegria e urros e mais urros quando falei com ele ao telefone e contei sobre o livro do Urariano que acabara de ler. E ouvia sua esposa, ao seu lado, dizendo: é a Sol assassinada em Recife, é a Sollll... Confirma o livro é sobre a Sol. Perguntaaaa. E foi o que aconteceu. Confirmei ser realmente a Sol, Soledad Barrett Viedma.

 

     Fiz esse preâmbulo apenas para comentar sobre o Urariano e seu livro Soledad no Recife, lançado dia 29 de julho deste ano, pela Boitempo Editorial, São Paulo. É difícil falar do Urariano como pessoa, pois não o conheço pessoalmente, apenas pela Internet. Tive a honra de receber matéria de sua autoria para postar no meu Blog Retalhos do Modernismo. Mas, gostaria de tecer alguns comentários a respeito dele, primeiro apenas o meu Dileto Amigo Urariano “virtual”:

     - Percebi seu potencial quando me enviou o texto para postar no meu Blog. Antes de ler Soledad no Recife, conheci Urariano por foto, que postarei no final. Meu filho é fotógrafo profissional. Ele me ensinou que, tirando as pessoas que são modelos profissionais, nós, os simples mortais, sempre estampamos na fisionomia eternizada numa foto, todo o nosso eu interior e os nossos sentimentos mais aguçados naquele momento do clique da máquina. E nessa foto do Amigo Urariano, percebe-se, refletido na sua fisionomia, o seu interior inquieto e recheado de honestidade e justiça – grandezas essas que estão se escasseando dia após dia. Percebi sua satisfação e alegria por ter tido a coragem de ressuscitar a Soledad que existe dentro de cada um de nós, pelo menos dentro daqueles que não são “traíras”, medrosos e mentirosos. Urariano, meu amigo “ainda” virtual, ainda terei a oportunidade de um dia poder abraçá-lo – e que nesse dia haja Sol. Considero Você, Dileto Urariano, o Ernesto Cardenal Pernambucano (guardada as devidas diferenças de credo religioso).

 

     O Escritor Urariano: Sinceramente? Ao ler Soledad no Recife, fica difícil definir o estilo urarianico: um Romancista? Um Contista? Não seria ele um Poeta? Você, nobre Escritor Urariano, caso tivesse escrito o Soledad como auto (O Auto de Soledad no Recife), não teria tirado o efeito proporcionado pela belíssima forma utilizada. É indecifrável a forma do Soledad. Posso apenas cravar aqui uma única e ousada opinião pessoal:

     - “Você conseguiu com Soledad no Recife adentrar-se no rol dos escritores mais nobres deste país”.

 

     Dileto Urariano: concluo este meu artiguete feliz por ter tido a oportunidade de ler o teu Soledad no Recife e talvez ter sido, na minha edição, o teu primeiro autógrafo do lançamento. Parabenizo a Boitempo Editorial, pois sei muito bem que muitas outras grandes editoras não suportam esse estilo de texto. Acho que ainda existem Editores que tremem quando estão diante de textos que focam os delitos e os genocídios ocorridos no Brasil durante a ditadura pós-64. Não posso deixar de elogiar também a maravilhosa apresentação do Flávio Aguiar e a belíssima síntese do Alípio Freire.

 

     E ao Dileto leitor deste Blog: Caso ainda não teve a oportunidade de ler Soledad no Recife, procure adquiri-lo. Faça um bom café ou chá, e comece a ler num dia que não tenha nenhum compromisso, pois você não conseguirá parar. E não tenha vergonha de sentir raiva e chorar, pois a história é ficção, mas os personagens e os fatos foram e ainda são reais, assim como muitos outros fatos similares ainda não foram devidamente explicados – e que mais nenhuma “Sol” venha tornar-se mais uma “mártir” neste nosso país.

* (Luiz de Almeida,  57: Piraju, São Paulo. Escritor e Pesquisador da Semana de Arte Moderna de 22 e Seus Personagens. Autor do livro de poemas ECOS. Moderador do Blog Retalhos do Modernimo - http://literalmeida.blogspot.com )


Escrito por urariano às 21h09
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Uma crônica da morte anunciada

 

* Paulo Sérgio Pinheiro

 

 

Soledad Barrett Viedma deve ter sido uma personalidade instigante, caso contrário teria sido impossível criar um personagem tão extraordinário - para, em torno dela, revisitar, como faz Urariano Mota em seu livro, a chacina de militantes na Chácara São Bento, na periferia do Recife, em 1973, quando um grupo de operativos da ditadura militar e do Dops paulista, sob o comando do delegado Sérgio Fleury executou seis membros da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Tendo sido capturados em lugares diferentes, os militantes apareceram como se tivessem sido mortos num tiroteio. Segundo a mentira oficial, teriam disparado 18 tiros, sem acertar nenhum, e recebido 26, sendo 14 na cabeça. Seus cadáveres ficaram brutalmente desfigurados; o corpo de Soledad (a ?Sol?), grávida de cinco meses, de pé, enfiado num barril com o feto do filho ao fundo. Onze anos depois do episódio, cabo Anselmo, que à época da chacina vivia com Soledad, diria: "Ela não morreu por minha culpa, morreu por aquilo que acreditava, morreu pelo caminho que escolheu. Ela morreu como vítima do movimento comunista internacional, não por minha culpa." (pág. 86) Delírio tardio de autoabsolvição pela traição política e pessoal que cometera.

Evidentemente, Soledad no Recife, de Urariano Mota, poderia ter sido apenas o registro e a desmontagem da farsa montada em torno desse crime brutal. Algo impulsionado, talvez, pelo encantamento do autor por Soledad, militante nascida no Paraguai; pelos poemas escritos em torno dela (como os versos de Mario Benedetti: "Soledad no moriste en soledad/ por eso tu muerte no se llora/ simplemente la izamos en el aire"); por seu renome como militante. Contudo, o romance de Urariano vai muito além. Recompõe o bárbaro sacrifício da militante e de seus cinco companheiros para tratar da resistência à ditadura sob ângulos inesperados - como a tensão do relacionamento de Soledad com Daniel/José Anselmo dos Santos, ninguém menos do que o cabo Anselmo, o antigo líder da Associação dos Marinheiros e Fuzileiros Navais, que fizera um incendiário discurso às vésperas do golpe de Estado militar que derrubou o presidente João Goulart.

Esse aspecto não seria surpreendente, do ponto de vista das relações amorosas entre jovens militantes, não fora Daniel, o cabo Anselmo, o provável agente provocador de 1964 e o infiltrado delator da década seguinte. A originalidade do livro está em fazer da tensão no par Soledad/Daniel a plataforma para o reexame de alguns temas clássicos da história dos movimentos de enfrentamento da ditadura, armados ou não. Por meio dos diálogos dos personagens - todos extremamente jovens (mesmo o cabo Anselmo, tinha, naquele momento, 30 anos ) - se desenrolam a discussão sobre a validade da luta armada, as contradições entre o amor e a militância, entre a vida pessoal e os objetivos da própria revolução, e a inserção da prática revolucionária no contexto latino-americano.

A inevitável pergunta de se o romance, em seu esforço para revisitar a chacina, foi bem-sucedido, não deve ser feita tendo no horizonte outras obras centradas na revolução mas com trama mais aprofundada e desenvolvida num período maior e num contexto mais detalhado. O que conta aqui é a eficiência da escolha, por Urariano, do gênero romance para examinar todas aquelas questões. Vem daí a originalidade de Soledad no Recife.

A protagonista da obra tem quase onisciência do cordeiro sacrificial. Há momentos na relação com Daniel/cabo Anselmo que ela parece antever o que a espera, o desfecho transfigurado pela própria situação de grávida de um filho do traidor infiltrado. O sentido do sacrifício antevisto foi expor às escâncaras a traição de Daniel/cabo Anselmo que ela apenas começava a pressentir, a partir do comportamento do companheiro em reunião com os colegas de militância.

O enorme encantamento do narrador com Soledad serve de contraponto para sua profunda repulsa em relação a cabo Anselmo. O que não o impede de desmontar quase com um rigor clínico - já ia dizendo "psicanalítico" - a personalidade do traidor. Retoma-se, assim, a questão da infiltração na organização, tema clássico desde o agente policial infiltrado no comitê de direção do partido bolchevique russo, logo depois de 1917, cuja idoneidade era atestada pelo próprio Lenin. Há um espanto com a clareza dos clichês, dos lugares-comuns do jargão revolucionário, a referência aos lugares venerados (como Cuba) fartamente usados por Daniel. Nada espanta mais, entretanto, aos olhos de hoje, do que o fato de os companheiros de Soledad não terem podido perceber a tempo a verdadeira personalidade do cabo Anselmo.

Ao se aproximar o desfecho da trama, o foco se alarga e, em volta de Soledad, crescem as biografias dos militantes que foram com ela chacinados - e que ficaram soterrados na lembrança pela ignomínia cometida por Daniel. São eles: Eudaldo Gomes da Silva, Jarbas Pereira Marques, José Manoel da Silva e Evaldo Luiz Ferreira de Souza (antigos companheiros do traidor na Marinha) e Pauline Reichstul, com uma trajetória tão exemplar como a de Soledad. Nascida em Praga, e tendo vindo para São Paulo com os pais, fez estudos na Universidade de Genebra, denunciou no exterior violações de direitos humanos no Brasil, se inseriu no movimento contra a ditadura e acabou regressando ao País, onde morreria. Em sua homenagem, seu irmão Henri Phillippe Reichstul, com a reparação recebida do Estado, criou uma fundação dedicada a serviços sociais.

A chacina dos quatro homens e duas mulheres na Chácara São Bento foi registrada pela imprensa amordaçada da época com o relato demonizado de suas biografias redigido pelos mandantes do crime. Sacrificada, Soledad reintegra neste livro o seu grupo. Mas o destaque da militante permanece, não propriamente em razão de sua história e de suas qualidades, compartilhadas com as de Pauline e dos outros, e sim porque a relação amorosa que manteve com o traidor assume conteúdos sacrificiais. O que ressalta os traços da traição absoluta do cabo Anselmo, capaz de articular o assassinato não apenas da companheira, mas do seu filho em gestação.

A maternidade destruída pela traição alarga a tragédia do assassinato de Soledad. No final do livro, o horror do desenlace esvazia a veneração, a fixação inicial inebriada do narrador pela protagonista. Segue-se a perplexidade diante da absurda dimensão do crime de Daniel/cabo Anselmo. Já lá se vão 36 anos de impunidade. Talvez o sacrifício de Soledad, Pauline, Eudaldo, Jarbas, José e Evaldo Luiz nos interpele para impedir que a ela continue a prevalecer, triunfante.

(Publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 6.09.2009)

 

 

* Cientista político, relator especial da ONU para a Situação de Direitos Humanos, consultor do Comitê Internacional da Cruz Vermelha, de 2004 a 2007.



Escrito por urariano às 23h43
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A filha de Soledad com o autor, no lançamento do livro em São Paulo

Soledad, como um poema

 

“Agora, quase 37 anos depois desse episódio, um escritor pernambucano, Urariano Mota, lança um romance sobre o caso, tendo como personagens centrais o narrador – que o escritor garante ser ficcional embora, como leitor, é difícil acreditar dado o texto poético, apaixonado, platonicamente apaixonado – e Soledad Barrett Viedma, a Sol, bela paraguaia de 28 anos, uma mulher sublime, militante da VPR, que, não se sabe como, tornou-se mulher do homem insensível e traidor que se tornou seu algoz.

Soledad no Recife é um livro de ficção, mas – acredito – só no modo de contar, no texto que parece um poema em que o autor se esqueceu de quebrar em versos. É um romance de valor histórico muito importante nestes tempos em que se tenta recuperar a história recente de um período que os adeptos da ditadura, da tortura, das mortes de opositores, tentam fazer que seja apagado da memória do Brasil e dos brasileiros.”

(Mouzar Benedito, no Observatório da Imprensa, que reproduz texto do seu blog  Via Política, http://www.viapolitica.com.br/principal.php)i

 

 

 



Escrito por urariano às 12h27
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Autógrafos

 

Quarta-feira, 29 de julho às 18h30

Livro: SOLEDAD NO RECIFE


Autor: Urariano Mota

Editora: Boitempo

 

Local: Livraria Cultura Conjunto Nacional - Av. Paulista, 2073 - Loja 151 - Artes - São Paulo/SP

 

 

Sobre o título:


Nesta quarta-feira, a Livraria Cultura receberá Urariano Mota para uma sessão de autógrafos do livro 'Soledad no Recife'. Com um texto poético que percorre as veredas dos testemunhos e das confissões, o escritor Urariano Mota revive neste romance a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e a traição que culminou em sua tortura e assassinato pela ditadura militar. Delatada pelo próprio companheiro Daniel, conhecido depois como Cabo Anselmo, Soledad morre com um grupo de militantes socialistas, na capital pernambucana, pelas mãos da equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. O episódio, conhecido como 'O massacre da chácara São Bento', revelou-se um extermínio calculado, bem diferente  do  confronto armado que a mídia, censurada, divulgou. Com caderno fotográfico, o livro traz ainda outras homenagens à Soledad, como o poema de Mario Benedetti, 'Muerte de Soledad Barret'.

 



Escrito por urariano às 15h00
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Soledad no Recife em julho

 

Publicado no site Vi o Mundo, http://www.viomundo.com.br/voce-escreve/soledad-no-recife-em-julho/

 

Edição, entrevista e texto:  Conceição Lemes

 

Eu a “conheci” ao ler uma coluna do jornalista e escritor pernambucano Urariano Mota, em Direto da Redação. Fascinou-me na hora. Uma jovem idealista, corajosa, doce e linda, muito linda.Foi torturada e morta no Recife em 1973, grávida, depois de ser entregue ao delegado Sílvio Paranhos Fleury, traída pelo cabo Anselmo , de quem trazia um filho na barriga. O texto era tão terno, carinhoso, delicado. Confesso que me passou pela cabeça os dois terem sido namorados.   

Emocionou-me tanto a história, que, imediatamente, quis saber mais de Soledad. Daí nasceu esta conversa com Urariano, que lança, em julho, o livro “Soledad no Recife” pela editora Boitempo. Ele é autor do romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici.

 

Viomundo -- Por que Soledad? Na sua coluna, você diz que só agora teve condições de mergulhar nas entranhas daquele momento. Por quê?

Urariano Mota -- Há temas que nos perseguem, embora nem sempre a gente perceba. No meu primeiro livro, o romance “Os corações futuristas”, houve Cíntia, uma brava socialista. Já no destino trágico de Cíntia havia um destino de Soledad. A "diferença" é que Cíntia se apoiava em outra pessoa, em outra militante. Enquanto Soledad, pelo menos quero crer e me empenhei muito por isso, Soledad é a pessoa. É a própria pessoa, pelo menos desejo ter realizado isso.

Por que só agora, 36 anos depois? De um ponto de vista pessoal, estou mais apto e cônscio de minhas fronteiras. De um ponto de vista mais geral, digamos, objetivo, o crime contra Soledad é o caso mais eloqüente da guerra suja da ditadura no Brasil. A traição que ela sofreu expressa, com vigor, a traição contra jovens do sentimento mais generoso, que é o sentimento de humanidade, do mundo. 

Viomundo -- Era tua amiga? Como ela era?

Urariano Mota -- Eu sou fundamentalmente um escritor.  Isso quer dizer, expresso minha experiência vivida, sempre. Ou em fatos biográficos, testemunhados e sofridos, ou em fatos imaginados, recompostos, ressurgidos, que são também, para a literatura, para o artista, fatos testemunhados e sofridos. Soledad não era, ela é minha amiga. Mas não trocamos palavras em sua curta vida. Este livro diz a ela, fala as palavras que não podemos trocar, no Recife da ditadura Médici.

Mais de uma pessoa, para não dizer quase todas as pessoas, pensam que Soledad foi minha namorada, que eu a conheci pessoalmente. Isso vem da narração e da forma apaixonada do relato.  Essa impressão surge, veio e vem do livro. Mais de um leitor já recebeu essa impressão. Isso se deve à mistura, em um só corpo, de pessoas e fatos absolutamente reais, documentados, sabidos, ao sentimento que tenho daqueles dias. O documento vivido pela segunda vez. Então, é claro, o elemento "ficcional" virou factual.  Como ela era, como ela é, o livro dirá. 
 
Viomundo --   É citado o massacre da chácara São Bento. Que lembrança isso traz?

Urariano Mota -- As notícias, publicadas em todo o Brasil em janeiro de 1973, dos seis "terroristas” mortos no aparelho da São Bento, são absolutamente falsas. As "notícias" de terroristas mortos, naquele tempo, eram reproduzidas com a mesma redação e teor em toda a imprensa brasileira. Vinham da agência de segurança nacional. Jamais houve o “massacre da chácara São Bento”. Houve a execução fria, planejada, de seis bravos militantes. A chácara foi o teatrinho criado para a execução de seis bravos.

Soledad Barret Viedma e Pauline Reichstul – há testemunho público disso - foram assaltadas em uma butique no Recife, de surpresa espancadas sob pistolas e seqüestradas. Em uma mangueira, por trás da butique, a proprietária notou depois sangue, vômito e urina. Isso de modo público, à vista de todos. Jarbas Pereira Marques, outro militante, que aparece entre os terroristas da chácara, foi retirado da livraria onde trabalhava, à luz do dia.
Digo isso no livro, e repito aqui: em uma ditadura, até as datas dos jornais são falsas. 
 
Viomundo -- Soledad foi traída pelo cabo Anselmo, que a delatou ao delegado Fleury. Você conheceu o cabo Anselmo? O que  sente por ele?

 
Urariano Mota -- Eu estudo o seu caráter há muitos e muitos anos. Ele é objeto de minha permanente observação e pesquisa. No entanto, jamais vi na rua o cabo Anselmo. Eu o conheço por seus cadáveres, que ele arrasta como uma cauda. Fui, sou amigo de quem ele perseguiu, traiu e matou.

Ninguém podia imaginar que ele fosse uma infiltração. Anselmo pertence à família dos agentes duplos, dos instrumentos de política que se chamam espiões. Isso quer dizer: ele é um mundo de mentiras. Ele era e é um sistema em que mentiras armam mentiras, que constroem mentiras, sempre. Isso quer dizer, enfim, que tudo quanto esse instrumento dizia e disser, falar, deve ser posto sob absoluta desconfiança, porque ele mente por sistema, por hábito, por defesa, por ataque e natureza. Não se pode acreditar em uma só das suas palavras. Quando ele diz eu amo, eu respeito, o bom senso deve traduzir de imediato, ele odeia e despreza.

Sou de opinião que não importa o seu último nome. Porque ele não tem outro nome nem outra face. Jonas, Daniel, José, com barba, sem barba, magro, gordo, com novos olhos, novas orelhas, novo nariz, nova boca, não importa. Ele será sempre, para onde for, cabo Anselmo, aquele que gerou a morte da sua companheira, que trazia um filho no ventre.

Viomundo -- Soledad morreu jovem, linda. Se ela vivesse no Brasil de hoje, o que estaria fazendo Soledad, em quem votaria, o que a preocuparia? 
 
Urariano Mota -- É a pergunta mais difícil. Mas sei, ou posso ter a esperança de que ela estaria no movimento socialista, com um apoio crítico ao governo Lula. Continuaria linda, pelo fogo que tomava o seu corpo e sua vida, que não se apaga, não arrefece, apenas fica mais maturado. Como um vinho decantado que embriaga melhor.

Para ela, viva neste 2009, digo o que escrevi no livro:

Soledad não é só a mulher bonita, de um ponto de vista físico, cuja fotografia revela apenas uma estação do seu ser. Uma estação imóvel do seu peito dinâmico, e de tal modo que dará ao fotógrafo o que se diz de um mau desenhista, “isto não se parece com ela, não saiu parecido”. E se pedirá então ao fotógrafo o absurdo, a saber, que a máquina, a mecânica, reproduza um ser, a textura, cor e delicadeza da orquídea, da pessoa mesma. Como se fosse possível da flor um close que a isolasse do ar que ela respira, do campo em torno, do cheiro que exala, em resumo, como se fosse possível reproduzir o complexo, a conspiração de sentidos que se dirigem para um único fim, a pessoa, o ser vivo, poderoso em nos despertar amor, afeição, paixão, tar a e paz, que buscamos como a uma miragem. Ainda assim, se sabemos que na flor há um ser inalcançado na fotografia, se comparamos, se transpomos mal, imagine-se então Soledad no lugar dessa flor do campo. Imaginamos mal e mau, já vêem. Flor não se rebela nem canta. Flor nos desperta canção e rebeldia, quando machucada. Mas a pessoa de Soledad, ainda que lembre essa flor - e é irrecusável não lhe ver a pele como o tecido de uma pétala -, e assim a lembraremos pelo vento forte e traiçoeiro que se prepara para a muchucar e destruir, ainda assim, como a superar tal associação, ainda que nos persiga como só uma idéia é capaz de perseguir, hoje, neste dia do seu aniversário, ela está mais bela que antes.

 ¡Arriba, Sol!
 


Como aperitivo, encante-se com mais estes dois momentos de"Soledad no Recife"

Primeira vez em que Urariano fala de Soledad no livro

Eu a vi primeiro numa noite de sexta-feira de carnaval. Fossem outras circunstâncias, diria que a visão de Soledad, naquela sexta-feira de 1972, dava na gente a vontade de cantar. Mas eu a vi, como se fosse a primeira vez, quando saíamos do Coliseu, o cinema de arte daqueles tempos no Recife. Vi-a, olhei-a e voltei a olhá-la por impulso, porque a sua pessoa assim exigia, mas logo depois tornei a mim mesmo, tonto que eu estava ainda com as imagens do filme. Num lago que já não estava tranquilo, perturbado a sua visão me deixou. Assim como muitos anos depois, quando saí de uma exposição de gravuras de Goya, quando saí daqueles desenhos, daquele homem metade tronco de árvore, metade gente, eu me encontrava com dificuldade de voltar ao cotidiano, ao mundo normal, “alienado”, como dizíamos então. Saíamos do cinema eu e Ivan, ao fim do mal digerido O anjo exterminador. Imagens estranhas e invasoras assaltavam a gente.

A vontade que dava de cantar retornou adiante, naquela mesma noite. No Bar de Aroeira, no pátio de São Pedro, naquela sexta-feira gorda. Como são pequenas as cidades para os que têm convicções semelhantes! Estávamos eu e Ivan sentados em bancos rústicos de madeira, na segunda batida de limão, quando irromperam Júlio, ela e um terceiro, que eu não conhecia. Ela veio, Júlio veio, o terceiro veio, mas foi como se ela se distanciasse à frente – diria mesmo, como se existisse só ela, e de tal modo que eu baixei os olhos. “Como é bela”, eu me disse, quando na verdade eu traduzi para beleza o que era graça, graça e terna feminilidade.


A morte de Soledad

Chegamos agora mais perto de Soledad Barret Viedma. Excluo-me, na medida do possível, da qualidade daquele que a amou em silêncio. 

Há quem considere que a morte de Soledad, nas circunstâncias que conhecemos mais tarde, deu-se em razão de sua ternura. Isso é mais que um namoro, um interlúdio, para dizer que ela esculpiu a própria sorte, porque, diabo, era terna e verdadeira. Com a evidência de um escândalo. Prenhe de ternura até as raias do suicídio. Esse elogio torto, digno da reencarnação e pele de um Anselmo 2, é como um açúcar no sal de sua execução. Um doce, um mel, a lhe correr sobre os lábios entre coices, descargas elétricas e afogamentos. Conviria melhor ser dito que ela, por suas qualidades raras de pessoa, estava condenada.

 



Escrito por urariano às 08h51
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SOLEDAD  NO RECIFE

 

Este artigo foi publicado no suplemento cultural Correo Semanal, do jornal Última Hora, do Paraguai, no sábado 20 de junho de 2009. Para quem puder acessá-lo em PDF, verá uma foto inédita de Soledad Barret Viedma, que revoluciona até os peitos de pedra.  

 

 

El regreso de Soledad Barrett

 

Andrés Colmán Gutiérerz *

 

 

 
 

Era tan dulce y hermosa que hubiera llegado a ser "Miss Paraguay, carátula, almanaque", dice el poeta Mario Benedetti. Pero la sangre de su abuelo, el gran periodista, escritor y luchador anarquista Rafael Barrett, la tironeaba desde las raíces, conduciéndola a un destino de entrega a la lucha social y política, que forjó su corta, heroica y trágica historia.

Poco se sabe de Soledad Barrett Viedma, nacida el 6 de enero de 1945, hija de Alejandro Rafael Barrett López, único hijo del recordado autor de El dolor paraguayo. En Sâo Paulo hay una escuela y en Río de Janeiro una calle que llevan su nombre, pero en el Paraguay su historia es aún desconocida, apenas fragmentos filtrados a través del clásico poema de Benedetti y la canción de su compatriota uruguayo Daniel Viglietti.

Ahora, Soledad Barrett es rescatada por el novelista brasileño Urariano Mota, quien la conoció personalmente en su Recife natal, y vivió de cerca su trágico fin, cuando, luego de haber militado en organizaciones de la izquierda uruguaya, llegó hasta el Nordeste del Brasil, en 1971, para unirse a filas de la Vanguardia Popular Revolucionaria (VPR), la legendaria guerrilla brasileña, liderada por el capitán Carlos Lamarca, en la lucha por derrocar a la dictadura militar del vecino país.

Soledad en Recife es el título del libro que publicará la Editorial Boitempo, en julio. Se trata de una novela de no-ficción o reportaje novelado, que recrea la valiente entrega de la joven paraguaya a la lucha revolucionaria, y cómo acabó entregada a los represores por su propio amante, el supuesto guerrillero Daniel, quien en realidad era "el cabo Anselmo", un doble agente de la dictadura.

Urariano Mota, nacido en Recife y residente en Olinda, es autor de la consagrada novela Os coraçôes futuristas, que retrata los sombríos años de la dictadura Médici en el Nordeste brasileño, en los años 70.

"Soledad Barrett marcó profundamente mi juventud, cuando la vi en mi ciudad, en 1973. Después de su muerte, tomé conocimiento de tres grandes crímenes: a) su propia y vil ejecución; b) la traición del cabo Anselmo, su propio esposo; c) la muerte de un amigo mío entre los seis ?terroristas' que fueron exterminados con ella", relata el escritor al Correo Semanal.

"Yo tengo por Soledad Barrett amor y admiración, como el libro lo narra en voz más alta que esta declaración", afirma Urariano Mota, acerca de su nueva obra.

"Esta admiración se extiende a su abuelo, el gran Rafael Barrett, escritor olvidado fuera del Paraguay. Así como lo menciono en el libro, Rafael Barrett transmitió a Soledad no solamente la sangre, la herencia de caracteres, sino que él fue su inspiración y su influencia hasta la trágica muerte", declara el novelista.

Eran años de dictadura y terror. También de lucha revolucionaria y amor. Soledad tenía 25 años de edad cuando perdió a su esposo, el brasileño José María Ferreira de Araújo, capturado y asesinado por los militares, en 1970.

En el fragor de la lucha se reencontró con Daniel, antiguo compañero de José María, a quien había conocido en Cuba. Era un militar que lideró la "revuelta de los marineros", en 1964, contra el Gobierno de João Goulart, y se había convertido en héroe para los guerrilleros. Pero la dictadura lo había captado como agente y tenía la misión de delatar a sus compañeros.

Soledad halló en él a un nuevo compañero, sin desconfiar que lo iba a traicionar. La paraguaya estaba embarazada de 5 meses, cuando el padre de su bebé la entregó a los militares, junto con otros cinco miembros de la VPR, el 8 de enero de 1973. Fueron secuestrados y salvajemente torturados hasta la muerte, en una granja de las afueras de Recife, en el caso conocido como "A masacre da chácara de São Bento".

A pocos días de haber cumplido 28 años de edad, la revolucionaria nieta del gran Rafael Barrett acabó su vida de manera violenta, para ser recordada por los versos de Mario Benedetti: "Soledad, no moriste en soledad, por eso tu muerte no se llora, simplemente la izamos en el aire...".

Treinta y seis años después, la guerrillera paraguaya Soledad Barrett vuelve a vivir, gracias a la pluma de un apasionado escritor brasileño.

El escritor brasileño Urariano Mota publica en julio su libro Soledad en Recife, que rescata la heroica y trágica historia de la luchadora y guerrillera paraguaya, nieta del gran Rafael Barrett.


* Periodista, escritor, guionista. Publicó las novelas "El último vuelo del pájaro campana" (1995, Premio de Narrativa El Lector, reeditada en 2007), "El país en una plaza" (2004), el album de cómic "Mediodía en la tierra de nadie (El asesinato del periodista Santiago Leguizamón)" (2006) y el libro de cuentos "El Principito en la Plaza Uruguaya". Recibió el Premio Vladimir Herzog (Brasil, 1985) y el Premio Nacional de Periodismo Santiago Leguizamón (Paraguay, 2000). Es periodista del diario Ultima Hora. Director de Libertad de Expresión del Foro de Periodistas Paraguayos (Fopep).






Escrito por urariano às 14h24
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A hora de Soledad Barret Viedma

 

Urariano Mota

 

 

Amigos, aquilo que há muitos e muitos anos eu sentia  por todos os  poros e sentidos, aquilo que meu faro pressentia, que a hora de Soledad Barret Viedma se acercava, agora chegou. Em julho, a  Boitempo Editorial publica o meu, o nosso livro,  “Soledad no Recife”.

 

Para quem não sabe, Soledad Barret Viedma foi torturada e morta no Recife em 1973, grávida e traída, depois de entregue a Fleury pela marido, o Cabo Anselmo. 

Um dos leitores de Soledad no Recife assim se expressou:

 

“O livro alcança e fere vários tipos de leitores, desde os que já conhecem a história do ‘massacre da chácara São Bento’ até os que a desconheçam totalmente.

 

É um relato candente, comovido e comovente, construído desde um ponto de vista original, qual seja, o de uma voz narrativa pertencente a quem tenha conhecido os dois protagonistas históricos da trama, Daniel, aliás, Cabo Anselmo (ou será o contrário?), e Soledad, a jovem idealista assassinada, com os demais companheiros. O relato recupera um clima de época através das letras de música com muita habilidade.

 

É um relato testemunhal, no sentido bíblico da palavra, e ao mesmo tempo confessional. É testemunhal porque visa dar testemunho, contar uma verdade, trazer à luz fato que revela e elucida”.

 

Portanto, amigos, não foi em vão esperar tanto tempo.

 

“Sete anos de pastor Jacó servia

Labão, pai de Raquel, serrana bela;

Mas não servia ao pai, servia a ela,

E a ela só por prêmio pretendia....   

 

... Dizendo: - Mais servira, se não fora

Para tão longo amor tão curta a vida”.

 

A bela e brava Soledad Barret Viedma volta à vida em julho. Em todas as livrarias.



Escrito por urariano às 10h26
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BOLSONARO: CUIDADO, MORDE

 

Urariano Mota

 

O deputado federal Jair Bolsonaro, do PP do Rio, já vai no quarto mandato. Do seu perfil na Câmara Federal, podemos ver as qualificações:

"Formação de Oficiais, AMAN, Resende, RJ, 1977. Pára-Quedismo Militar, Brigada Pára-Quedista, Rio de Janeiro, RJ, 1977; Educação Física, Esc. de Educação Física do Exército, Rio de Janeiro, RJ; Mestre em Saltos, Brigada Pára-Quedista, Rio de Janeiro, RJ, 1983; Mergulho Autônomo, Corpo de Bombeiros, Rio de Janeiro, RJ, 1985; Aperfeiçoamento de Oficiais, ESAO, Rio de Janeiro, 1987".

Como veem, para as altas funções de legislador, o deputado é ótimo para dar saltos, mergulhar, cair sobre um alvo e dar tiro. (Já entre os companheiros de quartel no Rio de Janeiro, era conhecido como "cavalão".) Com efeito, entre seus últimos discursos, no dia 2 de abril registra-se que saudou o Exército brasileiro ao ensejo dos 45 anos do golpe militar ocorrido no País. Que lembrou as manchetes jornalísticas publicadas por ocasião do regime militar. E que listou os crimes cometidos pela Sra. Dilma Rousseff durante a resistência ao regime. E, se temos paciência para encontrar algo mais relevante do deputado, seremos informados de que discursou para lembrar os 35 anos da inauguração da Ponte Rio—Niterói.

 

A pesquisa sobre o nobre deputado, no entanto, verá coisas bem mais perigosas. Os dados formam um verdadeiro prontuário. A começar pela entrevista è revista Istoé Gente:

"A polícia agiu corretamente no Carandiru?

- Continuo achando que perdeu-se a oportunidade de matar mil lá dentro. Pena de morte deve ser aplicada para qualquer crime premeditado.

Isto inclui tráfico de droga?

- Aí é outra história, aí eu defendo a tortura. A pena de morte vai inibir o crime. Nunca vi alguém executado na cadeira elétrica voltar a matar alguém. É um a menos.

Em que outras situações o senhor defende a tortura?

- Um traficante que age nas ruas contra nossos filhos tem que ser colocado no pau-de-arara imediatamente. Não tem direitos humanos nesse caso. É pau-de-arara, porrada. Para seqüestrador, a mesma coisa. O objetivo é fazer o cara abrir a boca. O cara tem que ser arrebentado para abrir o bico.

E a tortura praticada pela ditadura militar?

- Admito que houve alguns abusos do regime militar, mas a tortura não foi em cima de um simples preso político. Aquelas pessoas estavam armadas e matavam. Só na Guerrilha do Araguaia perdemos 16 militares."

E mais. Com os manifestantes do Grupo Tortura Nunca Mais e da União Nacional dos Estudantes (UNE), que protestavam em frente ao Clube Militar, ele rosnou: "O grande erro foi ter torturado e não matado". E, virando-se para os familiares de mortos e desaparecidos, gritou: "Fodam-se!". Em plenário, aos berros, já chamou o Ministro da Justiça de "terrorista mentiroso".

Como pode um tal mestre em saltos de brigada continuar impune? Uma possível explicação é que, para seus pares, ele não passa de inofensivo palhaço, de afirmações "polêmicas", típicas de militares de extrema-direita.

Mas há que se levá-lo a sério. Os fascistas sempre começam o assalto à democracia pelo ridículo, porque as pessoas civilizadas confundem o atraso com a inocência. Pois esse miliciano desequilibrado não hesitará um só momento em torturar e matar, conforme tem reiterado a quem quer que seja. Esse deputado lembra mais um vampiro, em cujo corpo os velhos dráculas do regime ressuscitam. Para um indivíduo tão perigoso, há uma letargia até mesmo de deputados de partidos de esquerda. Mas que agora pode ser rompida, a partir de uma queixa formal, feita à presidência da Câmara. Nestes termos:

"Pela presente, o Grupo Tortura Nunca Mais/SP vem manifestar sua profunda irritação e indignação em virtude das provocações e falta de ética do deputado federal pelo Estado do Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro. O deputado federal Jair Bolsonaro tem na porta do seu gabinete um cartaz, no qual aparece um cachorro com um osso na boca e com a seguinte frase: ‘Desaparecidos da Guerrilha do Araguaia, quem gosta de osso é cachorro’.

As provocações de Jair Bolsonaro representam uma falta de respeito aos familiares dos mortos e desaparecidos e a todos os que lutaram e tombaram durante o regime nazimilitarista em nosso país.

O Grupo Tortura Nunca Mais/SP lamenta profundamente que as provocações desse aprendiz de nazista ocorram, exatamente, quando surgem várias denúncias sobre a ‘Operação Condor’ e quando aumentam as pressões dos movimentos sociais e órgãos internacionais para a abertura dos arquivos secretos das forças armadas e punição dos torturadores, por uma verdadeira Anistia, sem a qual jamais teremos um Estado Democrático de Direito em nosso país.

O Grupo Tortura Nunca Mais/SP considera que o deputado federal Jair Bolsonaro deveria ter seu mandato cassado por falta de decoro parlamentar.

Atenciosamente, Delson Plácido".


Com um tal prontuário de feitos, penso que a placa do gabinete de Bolsonaro poderia ser substituída pelo aviso: "Cuidado, morde".


(Publicado no Direto da Redação, http://www.diretodaredacao.com/)



Escrito por urariano às 11h54
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Mario Benedetti e o Recife

 

Urariano Mota

 

Na imprensa brasileira, as notícias sobre a morte de Mario Benedetti são lacônicas, medíocres e omissas. Peguem o google notícias em España e terão um perfil digno de um grande escritor. Já no Brasil... Uma nota do Estadão nada diz sobre o papel político da sua obra.  Na Folha de São Paulo, em linhas brevíssimas, passa-se como um gato sobre brasas, na menção às idéias de fraternidade do escritor: "Devido às suas posições políticas, Benedetti exilou-se do Uruguai por doze anos, quando o país sofreu um golpe militar, em 1973. Morou na Argentina, Cuba e Espanha e voltou ao Uruguai em 1985. Benedetti foi ainda um grande crítico da política externa dos EUA".

Pior, no G1, o espaço para a morte de Benedetti é ocupado por uma imensa foto e a informação lacônica:

"O escritor uruguaio Mario Benedetti morreu hoje em Montevidéu aos 88 anos. Considerado um dos principais autores uruguaios, ele iniciou a carreira literária em 1949 e ficou famoso em 1956, ao publicar ‘Poemas de oficina’, uma de suas obras mais conhecidas. O autor tinha um estado de saúde bastante delicado e estava em sua casa, na capital uruguaia, quando morreu". Isso é mais que ridículo, é criminoso.  Para sair desse quadro, passem o olho no El País, e leiam "El poeta del compromiso". Um banho de informação.

 

Como a grande imprensa não vai lembrar, por ignorância ou omissão, divulgo um lindo poema de Mario Benedetti, que se refere ao Brasil, a Pernambuco. Perdoem a livre tradução de Muerte de Soledad Barret. O poema é um sensível registro, em Montevidéu, da dor que lhe causou a notícia da morte da bela e brava Soledad Barret Viedma. Soledad foi torturada e morta no Recife em 1973, entregue a Fleury pela marido, o cabo anselmo. Estava grávida, com cinco meses.


MORTE DE SOLEDAD BARRET

 

Mario Benedetti

 

Viveste aqui por meses ou por anos
traçaste aqui uma reta de melancolia
que atravessou as vidas e a cidade

Faz dez anos tua adolescência foi notícia
te marcaram as coxas porque não quiseste
gritar viva hitler nem abaixo fidel

eram outros tempos e outros esquadrões
porém aquelas tatuagens encheram de assombro
a certo uruguai que vivia na lua

e claro então não podias saber
que de algum modo eras
a pré-história do íbero

agora metralharam no recife
teus vinte e sete anos
de amor de têmpera e pena clandestina 

talvez nunca se saiba como nem por quê

os telegramas dizem que resististe
e não haverá mais jeito que acreditar 
porque o certo é que resistias
somente em te colocares à frente  
só em mirá-los

só em sorrir 
só em cantar cielitos com o rosto para o céu

com tua imagem segura
com teu ar de menina
podias ser modelo
atriz
miss paraguai
capa de revista
calendário
quem sabe quantas coisas


porém o avô rafael o velho anarco
te puxava fortemente o sangue
e tu sentias calada esses puxões

soledad solidão não viveste sozinha
por isso tua vida não se apaga
simplesmente se enche de sinais

soledad solidão não morreste sozinha
por isso tua morte não se chora
simplesmente a levantamos no ar

desde agora a nostalgia será
um vento fiel que flamejará tua morte 
para que assim apareçam exemplares e nítido
as franjas de tua vida

ignoro se estarias
de minissaia ou talvez de jeans 
quando a rajada de pernambuco
acabou completo os teus sonhos

pelo menos não terá sido fácil
cerrar teus grandes olhos claros
teus olhos onde a melhor violência
se permitia razoáveis tréguas
para tornar-se incrível bondade

e ainda que por fim os tenham encerrado
é provável que ainda sigas olhando
soledad compatriota de três ou quatro povos
o limpo futuro pelo qual vivias
e pelo qual nunca te negaste a morrer.

 

 



Escrito por urariano às 12h12
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Treze de maio de 2009

 

Urariano Mota

 

 

No café da manhã, minha mulher lembrou que hoje é treze de maio. Não fosse a sua lembrança, eu não escreveria esta crônica.

 

Os primeiros trezes de maio, que lembro em mistura aos goles do café,  me vêm do Ginásio Ipiranga na infância. Olho para o lado agora como se nada visse, assim como os colegas negros em 1961 olhavam de lado, ou baixavam os olhos, ao ouvirem a lição lida em voz alta no livro didático:

 

"ABOLIÇÃO DA ESCRAVIDÃO - A escravidão negra foi introduzida no Brasil em 1550. Não tendo os portugueses conseguido escravizar os índios para obrigá-los a trabalhar na lavoura, resolveram utilizar negros africanos nessa tarefa...". E mais adiante, todos haviam que decorar a resposta certa da pergunta no questionário: - Por que foi introduzida a escravidão negra no Brasil? - Ora, respondíamos todos, negros, brancos e mulatos, "porque os portugueses não conseguiram escravizar os índios para obrigá-los a trabalhar nas lavouras". O espaço daquele aprendizado era um círculo fechado, redundante: os índios não quiseram trabalhar como escravos, daí que a solução foi importar negros da África. E, naturalmente, os negros foram escravizados porque os índios eram rebeldes. Então, para dar substância ao círculo, era ensinado que os negros vinham, mansos, passivos, cordatos, porque assim era a sua natureza, ser negro e escravo em uma só pessoa. Então os meus antigos colegas olhavam de lado.  

 

É interessante notar que no Brasil de 1961 negros eram os meninos de pele mais escura que a nossa. Negros eram os meninos de cabelo mais duro que o nosso. Negro não era uma raça, era uma cor do lápis de cor, ou a cor do grafite em toda a pele. E por isso líamos todos as lições que confirmavam a exclusão geral, como se fosse uma exclusão particular de outros, dos outros negros:

 

"A PRINCESA ISABEL ASSINA A LEI ÁUREA - ... A Regente vai lançar o nome no pergaminho, quando, em nome do povo, recebe uma caneta de ouro, cravejada de pedras preciosas. E é com a bela caneta de ouro que assina a lei que a Nação enternecida cognominou de 'áurea'. Da rua, a multidão, em altos brados, exige a presença de Isabel. E a Princesa aparece à janela, tendo ainda na mão a pena com que acabou de dar liberdade à raça negra do Brasil. Na praça inteira, o povo agita os braços festivamente, bradando em coro, em pleno delírio:

- Redentora! Redentora! Redentora!...".

 

Um dia ainda vou escrever sobre o grande mal que esse tipo de educação fez a  todos nós. Uma educação mitificadora, preconceituosa, de omissões e mentiras. Todos nós aprendíamos um Brasil sem conflitos e sem história. Aprendíamos um Brasil ideal para as sinhazinhas prendadas. Lá na sala de aula, em todos os trezes de maio, nos virávamos para os negros, para os de pele mais escura que a nossa. Os meus colegas, os meus amigos, incapazes de uma resposta plena da rebeldia dos quilombos, baixavam os olhos. Os meus irmãos de pele e coração às vezes sorriam, sorriam com o seu riso mais branco que os detergentes da televisão, sorriam só com os dentes brancos, quando ouviam, “hoje é teu dia, negão”.   

 

E com isso passávamos adiante a formação da escola burra, uma escola que passava o apagador até mesmo em nossa história familiar, com a pregação da redentora Princesa Isabel, santa Isabel, que libertara os negros do Brasil. Somente muitos anos depois, em São Paulo, vi um treze de maio diferente. Em  1978, vi um 13 de maio de negros de todas as cores, de todas as raças, que repunham em lugar da salvadora dos pobres negrinhos um orgulho e uma disposição de puxar o véu da história.

 

Mas então já não estavam ao meu lado os colegas do Ginásio Ipiranga. Aqueles, de pele mais escura, que baixavam os olhos. Eles haviam carregado para o resto de suas vidas as lições de perguntas fechadas e respostas prontas. Quem salvou os negros do Brasil? Os antigos colegas sabiam na ponta da língua. E por isso viraram médicos medíocres, funcionários  servis, engenheiros mesquinhos, indivíduos sem humanidade que mantêm distância dos negros mais pobres.

 

Vocês não sabem o quanto é bom ter chegado a este 13 de maio em 2009, agora, quando  as novas gerações sorriem e zombam da redentora, da princesa que salvou os negrinhos de alma branca. Viva este novo tempo. Do meu canto, saúdo com um cafezinho negríssimo todos os negros.

 

 

(Também no Direto da Redação, desde 13.5.2009)



Escrito por urariano às 16h36
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UM RECIFE SEM ESCRITORES

 

 

Urariano Mota

 

 A notícia corre a cidade: o Plano Municipal de Cultura do Recife aceita opiniões antes de virar lei. E quem estiver interessado em contribuir, que escreva para o vereador Osmar Ricardo, osmar.ricardo@recife.pe.gov.br. Isso até segunda-feira. Por isso me apresso em tornar pública esta mensagem, para que a caixa postal do vereador não a devolva entre tantas sugestões de maior peso. Por isso tento e atento a seguir.

Ainda que me julgue a gente toda por perdido, vendo-me tão entregue a tal cuidado, li o Plano Municipal de Cultura na esperança de vê-lo abrigar os criadores de prosa e verso. Erros meus e má fortuna em minha perdição se conjuraram, dá vontade de dizer. Mas digo, olhando bem: no Plano os escritores sumiram, se é que existem, pois raro são vistos na cultura da cidade. Parece que, com exceção de Ariano Suassuna, não há escritores no Recife. Entendam, por favor, Ariano vive sua glória com justiça, depois de toda uma vida de trabalho, criação e literatura. Mas no Recife existe só Ariano? E os outros, negros, mulatos, índios e mamelucos? Onde, em que limbo, inferno ou purgatório se encontram?

Sintam. Para um Plano de Cultura que vira Lei daqui a pouco, com valor e poder até 2019, deveríamos esperar para os escritores algo mais que um Festival Recifense de Literatura todos os anos. A não ser, claro, que os escritores estejam devida e honrosamente contemplados com "Fomento à Literatura - Realizar, anualmente, o Concurso de Prêmios Literários e publicar as coletâneas Marginal Recife, Estação Recife e Invenção Recife, que contemplam a produção poética da cidade; reforçar as publicações; estabelecer um calendário para os prêmios literários nas escolas". O recurso de copiar e colar não foi bem o que fiz agora, na citação anterior. Ele se deu, na verdade, no Plano, quando misturou um relatório de atividades da Secretaria Municipal ao que será norma nos próximos 10 anos. Mas admitamos, num ato de crença, boa fé e melhor vontade em uma só pessoa, que as coletâneas Marginal Recife, Estação Recife e Invenção Recife se rep itam ao infinito. Mas, perguntamos, para que se editar no município, se os livros não circulam, se enchem os depósitos, e de tal maneira que um dos problemas da Secretaria de Cultura é conseguir espaços para amontoar tantos livros "publicados"? Se os livros não se leem, eles, além de uma despesa inútil, são uma forma moleque de se publicar e se continuar inédito.

Mas continuemos, ó homem de pouca fé e açúcar. Pesquisamos mais no Plano e, sentimos, devíamos substituir o açúcar por algo mais dietético. Isso porque nos Programas Estratégicos , na Descentralização Cultural nada há para os escritores. O que é natural, no Recife escritor ou já é centrado ou vive a baixar em centros. Adiante. Nos Direitos Culturais, também nada vezes nada. É direito. Para quê direito à literatura? Na Promoção de Políticas de Transversalidade (que nome!), também nada. O que é natural, também entendemos. As transversais literárias sempre deixam os nossos literatos em uma encruzilhada. Ou vão para o inferno ou vagam em ruas como almas penadas. Adiante. Na Econonomia da Cultura, nada. O que é natural, isso também compreendemos. Com tanta despesa de livros publicados, de que economia reclamam os nossos poetas? Adiante. Em Cultura e Comunicação, também, já viram, nada. Quem é culto, sabe, Literatura não é comunicação, pois escritor não se comunica, vive a conversar com as musas. Muito bem. Com tantos nadas, onde poderia mesmo a Literatura entrar em um dos Eixos do Programa Estratégico do Plano Municipal de Cultura do Recife? (ufa, é um trem de nomes) Onde? Ó homem de má vontade, olhe só onde:

"FORMAÇÃO DE PÚBLICO..." Em décimo quarto lugar entre 16 ordens, aparece "...14. Desenvolver anualmente programas de incentivo à leitura, com oficinas artísticas e técnicas para crianças, jovens, adultos e idosos, realizadas em diversos locais, como escolas públicas, centros culturais, centros de reabilitação,

associações, entre outros. ". Antes que nos ocorram perguntas do gênero, por que anualmente, e não de modo permanente, todos os dias do ano?, devemos reconhecer que nesse ponto é tocada a ferida. E dói, porque, também neste ponto estas linhas devem propor algo, para deixar algo razoável no lugar do vazio e ausência da literatura. Por isso propomos, ilutre relator da nova Lei Municipal de Cultura. Considerando que, no geral, descontadas as honrosas exceções

1. Professores não leem e por isso não podem transmitir um vírus que não possuem

2. Professores - sempre honrados na exceção - e alunos perderam a prática de traduzir o que leem, quando, para a inteligência

Propomos

Um programa de alfabetização massiva nas escolas públicas, e de tal modo que alcance os mestres e alunos, 360 dias do ano. E quando dizemos alfabetização, queremos dizer, que o município assuma como seu dever indeclinável a conquista dos mestres e alunos para as letras e para sua experiência insubstituível. Para maior clareza, que a Lei abrigue programa de formação de leitores que deve ser franca, despudorada e assumidamente de literatura, para os professores e alunos das escolas públicas do Recife. Que se faça uma ponte da poesia e da prosa de hoje até à prosa e poesia dos nossos clássicos. Que tal programa seja uma sedução do conhecimento, como uma formação de gosto. De Carlos Pena e João Cabral aos poetas independentes. Do romance local a Crime e Castigo e Dom Quixote. Um despertar para a empatia imensa da literatura. Um programa enfim que seja realizado por escritores, por quem vive a literatura como destino, vida ou vida.

Justificativa

Porque não é mais possível que em um projeto de Lei se fale de literatura como uma concessão, quase um pedido de desculpa entre manifestações de palco, de estrelato e público de festivais. Não é possível que se fale da literatura na Lei futura para cobrir um lapso: "Ih, esquecemos a literatura. Então põe aí, letras também..". Não é possível enfim que em uma Lei de Cultura se deseje a literatura sem escritores, esses incômodos que vivem no mundo da lua, que para nada servem, como julga a vã, imensa e resistente ignorância. Os poetas, no Plano Municipal de Cultura nem sequer são lembrados no aniversário da cidade, deste Recife que eles cantaram como a terra entre o mar e o sonho. Para este arremedo de proposta, concluindo, é próprio encerrá-la com versos de Carlos Pena Filho, que esperamos não se tornem proféticos para os escritores na Lei dos próximos dez anos:

"Recife, cruel cidade,
águia sangrenta, leão.
Ingrata para os da terra,
boa para os que não são.
Amiga dos que a maltratam,
inimiga dos que não"

 

 



Escrito por urariano às 16h47
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Augusto Boal, lembrança

 

Urariano Mota

 

Os necrológios envergonhados dos jornais se abrem hoje com o registro "Morreu na madrugada deste sábado, aos 78 anos, o diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta Augusto Boal", para depois, num acréscimo, dizerem coisas como "em 1971, foi preso pelo regime militar, pelas ligações com o Partido Comunista do Brasil. Três meses depois, ao ser solto, foi para os EUA e, em seguida, para Argentina e Portugal". E as folhas mais mostram quanto mais escondem, pois fica patente o constrangimento do registro do falecimento de um homem como tu, ao mesmo tempo que mencionam, de longe, a razão do teu viver. Para os mais jovens, que leem um necrológio de tal natureza, os teus três meses de prisão podem até parecer que foram algo como uma repressão passageira, leve, pelo crime de uma ideologia clandest ina. Historinha dos mais velhos. Isso porque, nesses registros, o pano de fundo do Brasil da ditadura, o teatrinho dos tiros trocados entre terroristas e patriotas, a tortura, os a ssassinatos, a infâmia do Brasil de quando foste preso, "já passou, não é?, a dorzinha foi embora". É a isso que chamam edição, a nova edição: omitir em primeiro lugar, para depois torcer, distorcer, insinuar coisas que são veneno. Quem te mandou ser ligado a partido ilegal?

Se saímos dos jornais, e vamos para as grandes redes na web, dos provedores, recebemos a tua penúltima notícia como "Na década de 70, por estar exilado do país pela ditadura militar, difundiu seu método pela Europa. O seu trabalho pelo Teatro do Oprimido rendeu uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz em 2008", e a tua foto, sem a substância do que eras, apenas o rosto de um coroa meio maluco, cabeleira grisalha, assanhado, camisa florida, dói na retina. A tua mais recente notícia se insere no menu de "famosidades". Estás em um menu onde Amy Winehouse desmaia no Caribe, Ivete vai homenagear a mãe em tributo ao Rei, cunhado de Britney sai do hospital. A máquina da mediocridade, do falso, do business, contra a qual tanto lutaste, tenta nivelar a tua pessoa a divertimento. Isso quando apareces, porque em outros portais nem te deram o desprezo de a gripes e porcos te misturarem.

Para te dizer adeus, como a lembrar a composição que Chico Buarque te dedicou em Meu Caro Amigo, nada melhor que um trecho da Carta do MST endereçada a ti, que a web livre divulgou há pouco: "Generoso, expôs sempre por meio dos relatos de suas histórias, seu método de aprendizado: aprender com os obstáculos, criar na dificuldade, sem jamais parar a luta". Leio a frase e me ponho a pensar, a ruminar, em como teria sido bom se tivesses cruzado o caminho de um adolescente magro e faminto do subúrbio de Água Fria, zona norte do Recife. Sem pai, sem mãe, de patrimônio só o desejo, um dia aquele menino em 1965 quis ser ator. Sim, que mais queria, o que só queria? Ser ator de teatro, por que não? Então ele se dirigiu e procurou estímulo com um endinheirado empresário, que se dedicava ao teatro nas horas vagas.

- Seu Costa, assim, sabe?... será que o senhor, que conhece tanta gente, será que não podia me indicar para trabalhar no teatro?

 

Seu Costa em 1965 divertia-se no Teatro de Amadores de Pernambuco, lugar de classe média muito sensível naquele tempo. O novo burguês então olhou o rapazinho de cima a baixo, mediu o jovenzinho que de gente era só olhos:

 

- Você?! Você entrar para o teatro?! É o mesmo que entrar em mato sem cachorro.

 

E o adolescente de 14 anos desistiu do teatro,de amadores e profissionais para sempre. Penso agora em como teria sido bom que ele em 1965 soubesse que no teu teatro havia uma saída.

 

Ao ler a carta do MST há pouco, sinto que não poderia dizer "Nós, trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra de todo o Brasil, como parte dos seres humanos oprimidos pelo sistema que você e nós tanto combatemos, lhes rendemos homenagem, e reforçamos o compromisso de seguir combatendo em todas as trincheiras". Eu não lavro o campo, nada sei plantar, não crio galinha, nem mesmo tenho a coragem da luta pela terra desse movimento. Mas bem posso lembrar outros oprimidos.

Lembro um artista no bar Marola, em Olinda, que pedia dinheiro como pagamento para escrever nomes de clientes em grãos de arroz. Como são eloqüentes os artistas! Como sabem simbolizar com a precisão da flecha que atinge o olho da mosca. Para comer, esse artista no Marola escrevia minúsculo em grãozinho de arroz. Era um jovem, pálido, e é interessante como o vejo vestido em túnica grega a desenhar a mediocridade de toda a gente em grãos miudinhos. Melhor que a sua arte era o orgulho da sua arte. Enquanto percorria as mesas ele era insultado. Dele zombavam os miseráveis com dinheiro na carteira:

- Se eu fosse viver disso...

- Planta arroz, dá mais futuro ...

Enquanto ouvia isto, ele e seu orgulho, albatroz ferido cantava baixinho: "Ponta de areia, ponto final, da Bahia a Minas, estrada natural. Que ligava Minas ao porto, ao mar, caminho de ferro, andar, andar".

Por isso escrevo ao fim. Em lugar da visão do teu corpo a queimar, o corpo, só o corpo, aquilo e aquele que não mais é Boal, em lugar de qualquer visão mórbida, melhor lembrar-te ressurgido, a continuar tua vida no corpo e alma desses artistas que se erguem, e no meio da humilhação continuam, apesar de tudo, a andar, andar.

 

 



Escrito por urariano às 12h02
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Ayrton Senna, 15 anos depois

 

Urariano Mota

 

 

Os famosos, quando morrem, parecem entrar numa segunda vida. A gente comum, nós, também. A diferença é que a nossa segunda vida é mais curta, esvai-se depressa, em nossa própria geração, quando não desaparece antes, meses ou um ano depois. Quem?, perguntam, e ninguém responde.

 

A segunda vida dos famosos, é claro, é a reconstrução na memória, na lenda, que os sobreviventes lhe fazem. Apagamos mágoas, críticas azedas, pés de barro dos ídolos, e eles passam a reluzir sem nódoas ou manchas, quase. Apesar da ilusão, é uma atitude muito bonita, reconhecemos. Que beleza haveria em espancar um defunto? Que dignidade existe em acusar, destratar, quem não mais se defende? Essas coisas nos vêm enquanto pensamos sobre Ayrton Senna.

 

Quando Senna morreu, estávamos eu, Francesca, Lupicínio e Luanda, no bar de Eduardo, no mercado público da Encruzilhada. Tomávamos o café da manhã, naquele domingo de primeiro de maio. Sobre uma prateleira do bar o português ligara a televisão, para que os clientes assistissem a mais uma corrida de Fórmula 1. Com sinceridade, eu lhes digo que a televisão desligada, para mim, seria bem mais emocionante. Portanto, além de objetos coloridos que ao passar na tela deixavam um zumbido de vôo de abelhas, eu nada mais via. Me concentrava no cuscuz com galinha, que o safado do português dizia ser “à lisboeta”, para enaltecer o tempero e o preço de uma galinha à brasileira.

 

Súbito, um grito. Súbito, vários gritos. Os alcoólatras das primeiras horas do dia se levantam. “Estão bêbados”, me digo, e nem sequer olho para a televisão. Mas o som chega mais alto, e me viro para ver: Eduardo se esquecera de tudo, e se plantara bem juntinho à tela, como se surdo fosse. Ele parecia querer entrar em Ímola naquele instante, procurando entrar na imagem da televisão. Os bêbados e os sóbrios e os comensais também se fecham, compactos, em pé. Então ouço, se não me falha a memória, “Senna bateu, Senna bateu ... o acidente é sério ... a cabeça dele se mexeu... ele está vivo...”, e mais adiante, “nós torcemos para que ele esteja vivo... é muito sério.... bateu a mais de 200 por hora... pelo amor de Deus, todos torcemos para que esteja vivo....”. Então eu soube que Senna havia sofrido um acidente, muito sério. Paguei a conta e saí. Notei que Eduardo nem contou o dinheiro pago.

 

As pessoas muito amadas, achamos sempre que nunca morrem. É uma luta desigual, em que a nossa derrota é certa, mas assim somos. Com o super-herói acontece o mesmo. Lembram? Se ele está amarrado em um carro, se o carro vai ao abismo, sabemos sempre que no último minuto ele se livra das cordas e se agarra num penhasco salvador. Aquele tiro fatal na têmpora resvalará pela orelha, arrancando-lhe alguns fios de cabelo, sempre. Dos males do fígado, da coluna, do câncer e de outras terríveis moléstias ele não está imune, sabemos. Mas padecer dessas coisas de toda a gente são apenas o colorido da trama, o suspense, o seu movimento. No final, esperamos, porque já sabemos, o super não morrerá no fim. O seu destino é uma vitória prévia, sempre.

 

No decorrer daquelas horas do domingo, eu e o resto da gente esperávamos mais uma vitória de Senna. Ele batera antes, outras vezes. Ele escapara milagrosamente de acidentes, para surgir em pé, em meio à poeira, imune, sem riscos, sem amasso no vinco do macacão. Era mais que um caubói, como um Clark Kent sem óculos 24 horas por dia, com um sorriso de kriptonita, Ele . “Se depender de mim, vocês, jornalistas, irão esgotar todos os adjetivos do dicionário”, dizia, entre uma corrida e outra. Acidentes ocorrem, me disse, às vezes por ordem da Marlboro, da Williams. Aquilo passava, passaria, não podia mesmo ser muito sério. As pessoas, no entanto, não descolavam os olhos da televisão. Em dúvida, até o fim. Que foi: “Ayrton Senna está morto”.

 

Nos dias depois, os que não compartilhamos do amor a corridas, a Fórmulas 1, sentimo-nos como num enterro de comparecimento obrigatório em casa de vizinho. Ou como se entrássemos num longo cortejo fúnebre, pois caíramos num engarrafamento de trânsito, numa auto-estrada. Sentindo-nos entre lágrimas, coroas de flores e sirenes do carro de bombeiros, com o caixão lá em cima, na ponta da curva que serpenteava. Olhando de lado, para os carros que se arrastavam lento, pesarosos, sentindo-nos obrigados portanto a fazer uma cara triste. As coisas mais serenas que se diziam eram: “O Brasil perdeu o seu maior ídolo”. Ou “O Brasil está órfão”. Ou, creiam, “O Brasil perdeu o seu herói”. E aí, de verdade, a morte de Ayrton Senna começou a doer.

 

Enquanto Ayrton Senna fora um excepcional corredor, ou como se disse depois da sua morte, “O melhor piloto da Fórmula 1 de todos os tempos”, o mais completo, o mais veloz, o mais mais do melhor dos adjetivos, dos corredores substantivos, todos estávamos confortáveis. O mundo é mesmo diverso, ainda bem. Se existem pessoas que não gostam de corrida de automóveis, que felicidade. Uma exposição de Goya não ficará às moscas nas horas da Fórmula 1. É uma delícia uma corrida de touros, nos desenhos, enquanto correm lá fora a  mais de 300. Zuuum, nem ouvimos. Mas o conforto começa a desaparecer quando aos vencedores das pistas querem dar o valor que creditamos à nossa humanidade. Mais, porque tudo querem: quando fazem do pódio O Valor. Mais, porque a boca e a fome não conhecem medida: quando zombam do que a sensibilidade, a educação, a história nos fez como homens. Se um grande poeta ganha 300 reais por mês, não se pense, nem muito menos se proclame que o vencedor de milhões de vezes esse salário é o gênio da raça. 

 

Naqueles primeiros dias da morte de Senna foi assim que nos sentimos. Houve muita estupidez junta proclamada. Dos mais humildes, que diziam, “Senna foi o produto mais forte que tive para vender”, aos um pouco mais enfáticos, “Senna era o Brasil que dava certo”, até chegar aos bárbaros da nossa memória, que proclamavam, “O Brasil perde o seu maior herói”. Essas coisas, a formar um séqüito, terminaram por empanar o brilho real do seu trabalho, do seu real talento, da sua real pessoa, do seu real, à margem do seu valor em dólares. Havia nele, passada  a tempestade das lágrimas, passada a rendição ao culto do espetáculo, passada a admiração por seu sucesso, havia nele uma disciplina, um método de trabalho, uma paixão pelo que fazia, que muito nos serve, a todos, corredores, sedentários, amantes das pistas ou das artes. Há nele, nesse homem que se foi aos 34 anos, um drama, ou dramas, que reclamam um criador, sim, um criador, daqueles que ganham 300 reais por mês, daquele tipo de imortal brasileiro, que é imortal porque não tem onde cair morto.

 

Somente agora, a distância de anos depois, ganhamos algo semelhante à sua frieza. Ainda que não tenhamos a sua fé. Aquela fé superpoderosa, que dizia, “Não tenho limites. Estou com 33 anos e acho que ainda tenho muito pela frente”. Nem mesmo o super-homem seria capaz de afirmar algo parecido. Clark Kent sempre soube que o excesso de exposição à kriptonita era o seu limite: matava.



Escrito por urariano às 15h03
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